INVESTIMENTO · DUE DILIGENCE8 min de leituraInformações verificadas em 15 de setembro de 2026.

Due diligence contábil no Paraguai: o que revisar antes de comprar ou investir em uma empresa

Um balanço entregue pelo vendedor e uma certidão tributária são pontos de partida, não uma conclusão. Uma revisão útil procura verificar se a história contada pelos documentos coincide com os registros, os movimentos e a realidade econômica da empresa.

Conteúdo

1. Primeiro defina o que significa “revisar a empresa”

A expressão due diligence é usada para trabalhos muito diferentes.

Uma revisão contábil e financeira pode analisar:

  • demonstrações financeiras;
  • registros contábeis;
  • impostos;
  • bancos e caixa;
  • contas a receber;
  • fornecedores e outras dívidas;
  • ativos;
  • operações com sócios e partes relacionadas;
  • qualidade e consistência da documentação.

Mas não deve ser apresentada como substituto de:

  • revisão jurídica de títulos ou propriedade;
  • revisão legal de litígios e contratos;
  • revisão especializada de conformidade trabalhista;
  • licenças ambientais ou setoriais;
  • estado técnico de imóveis, máquinas ou sistemas;
  • análise comercial do mercado.

Antes de pedir documentos, defina que decisão a revisão precisa sustentar.

Comprar 100% de uma empresa não gera exatamente as mesmas perguntas que investir como sócio minoritário ou comprar apenas determinados ativos.

2. Existência, propriedade e controle

A primeira pergunta parece óbvia: a empresa oferecida é exatamente a empresa que existe nos registros?

No Paraguai, o MEF administra registros de pessoas e estruturas jurídicas e de beneficiários finais. O SIARA também disponibiliza informações públicas sobre entidades que fizeram comunicações aos registros administrativos.

Conforme o caso, a revisão deve comparar:

  • denominação;
  • RUC;
  • tipo de entidade;
  • representantes;
  • acionistas ou sócios;
  • beneficiários finais;
  • comunicações societárias;
  • alterações relevantes;
  • documentos constitutivos.

O objetivo não é coletar nomes por curiosidade. É verificar se a propriedade e o controle descritos pelo vendedor coincidem com a documentação e se mudanças relevantes podem ser acompanhadas.

Se houver divergência entre o contrato social, uma comunicação posterior e o que o vendedor afirma hoje, essa divergência deve ser resolvida antes de valorar a participação.

3. Situação tributária: mais do que pedir uma certidão

A DNIT permite obter certidões e comprovantes relacionados ao cumprimento tributário.

Esse documento é útil, mas responde a uma pergunta concreta: a situação do contribuinte diante das condições para emissão da certidão.

Uma due diligence mais ampla pode revisar:

  • RUC e obrigações ativas;
  • declarações apresentadas;
  • saldos e dívidas;
  • pagamentos;
  • retenções;
  • demonstrações financeiras entregues à administração tributária quando aplicável;
  • diferenças entre declarações e contabilidade;
  • contingências conhecidas;
  • operações incomuns.

Uma empresa pode estar formalmente em dia e ainda assim ter pontos que um investidor precisa entender: critérios contábeis discutíveis, despesas sem respaldo suficiente, diferenças de estoque, empréstimos de sócios ou uma posição tributária que dependa de interpretação.

A certidão não é inútil. Simplesmente não substitui o restante do trabalho.

4. Do balanço até a evidência

Uma demonstração financeira resume. A revisão tenta voltar do resumo para a evidência.

Caixa e bancos

Compare saldos contábeis com extratos e conciliações.

Pergunte sobre:

  • contas que não aparecem na contabilidade;
  • transferências sem explicação;
  • cheques pendentes antigos;
  • depósitos que não correspondem a vendas;
  • movimentos com sócios.

Contas a receber

Não basta saber quanto “os clientes devem”.

Interessa conhecer:

  • antiguidade;
  • concentração;
  • saldos vencidos;
  • notas de crédito posteriores;
  • disputas;
  • recebimentos ocorridos depois do fechamento.

Uma conta a receber de G. 500 milhões não vale o mesmo se foi recebida uma semana depois ou se está vencida há dois anos.

Fornecedores e dívidas

Compare o saldo contábil com comprovantes, contratos, extratos e pagamentos posteriores.

Procure obrigações registradas tarde ou que aparecem no banco mas não na lista de fornecedores.

Estoque

Se o negócio depende de estoque, o valor contábil deve poder ser ligado à existência física e a um método razoável de avaliação.

Estoque antigo, danificado ou invendável pode existir fisicamente sem ter o valor sugerido pelo balanço.

Ativos fixos

Para veículos, máquinas, imóveis e outros ativos materiais, pergunte:

  • existem?
  • pertencem realmente à empresa?
  • estão registrados?
  • existe dívida ou garantia associada?
  • o valor contábil ainda é útil para entender o negócio?

A titularidade jurídica de determinados bens deve ser revisada pelo profissional competente.

5. A qualidade da receita importa tanto quanto o total

Duas empresas podem faturar exatamente o mesmo e ter riscos muito diferentes.

Revise:

Concentração

Que percentual depende dos três ou cinco maiores clientes?

Se um único cliente representa metade das vendas, o comprador não está adquirindo um fluxo tão diversificado quanto o total anual pode sugerir.

Recorrência

Separe receitas recorrentes de vendas excepcionais.

Uma operação extraordinária ocorrida pouco antes da venda da empresa não deve ser confundida com o ritmo normal do negócio.

Partes relacionadas

Identifique vendas a empresas ligadas aos sócios ou administradores.

Elas não são necessariamente problemáticas, mas convém saber se as condições se parecem com as de mercado e se a relação continuará depois da operação.

Recebimento

Faturar não é receber.

Compare vendas, contas a receber e entradas bancárias para entender quanto da receita realmente vira caixa.

6. Dívidas que podem não aparecer na primeira conversa

O vendedor pode entregar uma lista correta e ainda assim existirem obrigações que não aparecem nela.

Pergunte sobre:

  • impostos;
  • fornecedores;
  • empréstimos bancários;
  • empréstimos de sócios;
  • obrigações trabalhistas e de seguridade social;
  • aluguéis e contratos de longo prazo;
  • garantias concedidas;
  • adiantamentos de clientes;
  • litígios ou reclamações, para encaminhamento à revisão jurídica;
  • compromissos de compra;
  • operações com partes relacionadas.

A pergunta útil não é apenas “quanto a empresa deve?”, mas “como sabemos que a lista está completa?”.

Uma técnica básica é revisar pagamentos realizados depois da data do balanço. Se aparecem pagamentos relevantes por obrigações que não estavam registradas, é preciso entender por quê.

7. Funcionários: conciliar pessoas, salários e obrigações

Quando há pessoal, convém comparar diferentes fontes:

  • folha interna;
  • registros contábeis;
  • pagamentos bancários;
  • documentação do IPS;
  • documentação trabalhista relevante;
  • provisões e saldos pendentes.

A revisão contábil pode encontrar diferenças. Determinar suas consequências jurídicas corresponde, quando necessário, a uma revisão trabalhista especializada.

8. Sócios e partes relacionadas

As operações com proprietários merecem atenção porque podem misturar a economia da empresa com a economia pessoal.

Revise:

  • empréstimos de sócios à empresa;
  • empréstimos ou adiantamentos da empresa aos sócios;
  • despesas pessoais pagas pela sociedade;
  • imóveis ou veículos de sócios utilizados pela empresa;
  • empresas relacionadas que faturam entre si;
  • garantias;
  • saldos antigos sem movimento.

O objetivo não é assumir que estão errados. É saber o que são e se continuarão depois do investimento.

9. Sinais que merecem uma segunda pergunta

SinalPor que importaO que pedir depois
Vendas crescem muito, mas o caixa nãoPode haver aumento forte das contas a receber ou problemas de cobrançaAntiguidade dos clientes e recebimentos posteriores
O banco não concilia com a contabilidadePode haver movimentos omitidos ou errosExtratos completos e conciliações
Muitos saldos com sóciosFinanciamento, retiradas e despesas pessoais podem estar misturadosDetalhe por movimento e comprovantes
O estoque cresce mais rápido que as vendasPode haver estoque lento, superavaliado ou diferença físicaEstoque por antiguidade e contagem
Fornecedores com saldos muito antigosPode haver disputas ou contas não depuradasExtratos de fornecedores e pagamentos posteriores
A margem muda bruscamente antes da vendaPode ser real ou resultado de classificação/operações não recorrentesVendas e custos por mês e explicação
Falta documentação de ativos importantesO balanço pode não demonstrar propriedade ou existênciaTítulos, notas, registros e verificação física
Certidões estão em ordem, mas faltam declarações ou suportes solicitadosA certidão não responde a todas as perguntas da due diligenceDeclarações, demonstrações e documentação subjacente

Um sinal não é uma acusação. É uma indicação de onde revisar mais.

10. Lista inicial de documentos

Uma solicitação razoável pode ser organizada por blocos.

Societário

  • documento constitutivo e alterações;
  • documentação de sócios/acionistas e representação;
  • comunicações societárias relevantes;
  • informação disponível sobre beneficiário final.

Tributário

  • RUC;
  • certidão ou comprovante de cumprimento;
  • principais declarações do período revisado;
  • extratos tributários relevantes;
  • comunicações ou fiscalizações abertas, se houver.

Contábil

  • demonstrações financeiras;
  • balancete;
  • razão ou detalhamento de contas relevantes;
  • políticas ou critérios contábeis importantes;
  • conciliações.

Bancos

  • lista de contas;
  • extratos;
  • conciliações;
  • empréstimos e linhas de crédito.

Receitas

  • vendas por cliente;
  • contas a receber;
  • antiguidade;
  • principais contratos quando relevantes;
  • recebimentos posteriores ao fechamento.

Dívidas

  • fornecedores;
  • empréstimos;
  • contas a pagar;
  • obrigações com sócios;
  • pagamentos posteriores.

Ativos

  • estoque;
  • ativos fixos;
  • documentação de propriedade;
  • dívidas ou garantias associadas.

Pessoal

  • folha;
  • pagamentos;
  • documentação trabalhista e previdenciária necessária para o escopo acordado.

A lista final depende do negócio. Uma empresa de serviços e uma importadora não deveriam receber exatamente o mesmo checklist.

11. Como os achados devem terminar

Uma due diligence útil não precisa classificar tudo como “bom” ou “ruim”.

Uma estrutura mais útil é:

Confirmado
A informação foi conciliada com evidência suficiente para o escopo acordado.

Diferença explicada
Havia uma divergência e foi obtida explicação sustentada por evidência.

Pendente
Ainda falta informação para encerrar a pergunta.

Risco ou ajuste potencial
A diferença pode afetar preço, garantias, condições ou decisão.

Revisão especializada
O assunto deve ser encaminhado a advogado, tabelião, especialista trabalhista, técnico ou outro profissional.

Isso permite ao investidor decidir o que fazer com a informação, em vez de receber apenas uma pilha de documentos.

Antes de decidir, vamos definir o que você precisa comprovar

Sandra Ovelar

Contabilidade & Assessoria Empresarial

Sandra trabalha com empresas, empreendedores e investidores no Paraguai em temas de contabilidade, cumprimento tributário, constituição de empresas e revisão contábil.

Fontes oficiais

Fontes oficiais

Escopo deste guia

Estas informações são gerais e foram verificadas na data indicada. Os requisitos podem mudar, e a situação tributária, societária ou documental depende de cada empresa. Quando uma decisão exige assessoria jurídica, notarial, migratória ou de outra especialidade, deve ser revisada com o profissional correspondente.